Elie Chalhoub: O que acontece no Bahrein?

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12 de Outubro de 2013 – 15h30

A boa notícia é que um acordo interno amadureceu no Bahrein após entendimentos escritos sob a supervisão dos EUA e recebendo aval do Irã. A má notícia é que tais acordos continuam no papel por pressão da Arábia Saudita, através do primeiro-ministro do Bahrein, Khalifa bin Salman Al Khalifa. A senha-chave desta história é a Síria e suas implicações regionais.

Por Elie Chalhoub*, no Oriente Mídia

Reuniões secretas em Londres, uma mensagem dos EUA para o monarca bareinita e o encontro entre os ministros do Exterior em Nova York indicam que a crise no Bahrein já desgastou as diversas partes assim como o derramamento de sangue que ainda corre apenas para o agrado da famíla Al-Saud.

A cena no Bahrein está clara: o primeiro-ministro Khalifa bin Salman Al Khalifa representa a hegemonia da Arábia Saudita no país, isolando o país do mundo sendo governado por um modelo tradicional de capitalismo e um monopólio econômico que rendeu ao premiê o apelido de “Sr. 10 por cento”, em referência à percentagem imposta por sua participação em qualquer projeto de investimento.

Além disso, ele representa a ala radical da família real saudita que recusa qualquer moderação com as revindicações da oposição majoritária.

Em paralelo, há o príncipe herdeiro, Salman bin Hamad bin Khalifa, arrojado e muito ambicioso. Um caso a parte. Um modelo liberal de capitalismo selvagem. Aberto a tudo.

Tem seus próprios canais de TV por satélites instalados desde o Irã até os Estados Unidos, passando pelo Conselho de Cooperação do Golfo (GCC). Ele tem uma história de boas relações com a oposição, que vê nele uma alternativa aceitável de compartilhar o poder do país.

Nisso, o Rei Hamad bin Khalifa fica no meio: teme o primeiro e se assusta com o segundo. Teme seu tio, o primeiro-ministro, que conhece melhor as equações da diplomacia interna e do Conselho do Golfo. Ele o vê como um fardo. Procura se livrar dele, mas não sabe como. Por outro lado, se assusta com o filho principalmente com a experiência recente do Qatar no qual o filho assume o trono e aposenta o pai. O dilema é como se livrar do Tio e impedir o filho de ser o Premiê.

Dizem que o secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel, entregou um documento ao rei do Bahrein sobre recomendações de mudanças da hierarquia em Manama: O primeiro-ministro deixará o cargo no final do mês de dezembro próximo e fará a passagem da Coroa ao filho. A informação não foi divulgada em razão dos últimos acontecimentos dos EUA não agredir diretamente a Síria e os entendimentos crescentes entre EUA e o Irã.

A crise no Bahrein é prato cheio, mas não anunciado no menu das negociações regionais. É sabido também que a crise tornou-se um fardo para os EUA que precisa responder à pergunta sobre o que está acontecendo em Manama, assim como constitui um embaraço para o Irã acusado de abandonar seus aliados vulneráveis. Nos bastidores, o problema é visto por esse ângulo também.

Reuniões confidenciais em Londres

Dias antes do início do tom elevado sobre um ataque dos EUA contra a Síria, aconteceram três reuniões longe da mídia em Londres. Com a presença de príncipe herdeiro Salman bin Khalifa e o secretário-geral da Associação Islâmica para um Entendimento Nacional Ali Salman, que representa a oposição, sob o patrocínio norte americano, chegou-se ao consenso de:

1 – Redistribuição das quotas na Câmara dos Deputados, incluindo 22 assentos assegurados aos xiitas em troca das atuais 18 cadeiras. (Hoje são 18 cadeiras aos xiitas e 22 aos sunitas).

2 – Alterar os poderes do parlamento gradativamente de modo a assegurar que a autoridade legislativa não seja apenas consultiva.

3 – O primeiro-ministro será nomeado pelo rei e aprovado pelo Parlamento.

4 – A família real mantém os ministérios considerados de soberania nacional, que são os Ministérios da Defesa, do Interior (Segurança Pública), Fazenda, Justiça e do Exterior. Outros seis ministérios ligados aos serviços públicos, seriam de cota aos xiitas.

5 – A libertação de todos os prisioneiros.

6 – A reintegração dos demitidos de seus trabalhos por perseguição política.

O acordo faz parte dos esforços dos EUA em acabar com a crise no Bahrein. E também uma mensagem direta de boas intenções ao Irã, deixando cair um pretexto que Teerã exige para um diálogo direto.

Com os crescentes preparativos que os EUA articulavam para bombardear a Síria, este esforço se tornou mais urgente no intuito de não haver uma resposta iraniana localizada no Bahrein em resposta à agressão dos EUA na Síria. Uma forma de “comprar” uma indiferença do Irã. Foi nesse contexto que Hagel levou suas recomendações ao Monarca do Bahrein.

Após a suspensão da agressão dos EUA à Síria, a crise no Bahrein teve um reflexo negativo já que os EUA reposicionou o Bahrein como carta de negociações futuras o que justifica o aumento das tensões no país e o aumento da repressão policial inclusive com a prisão do segundo homem na oposição,Khalil Marzouk .

Reuniões em Nova York

As surpresas de bastidores da Assembleia Geral da ONU em Nova York eram muitas. Incluindo a história de uma mensagem urgente que chegou ao Ministro do Exterior do Irã Mohammad Javad Zarif cujo conteúdo era o seguinte: “Se sua Senhoria estiver disposta a atender o pedido do ministro das Relações Exteriores Khalid bin Ahmed Al Khalifa do Bahrein por uma reunião de trabalho, estaremos oficializando isso”.

A resposta afirmativa do Irã culminou numa reunião caracterizada pela franqueza nas posições. O ministro do Bahrein elogiou as declarações de Teerã após a eleição do presidente Hassan Rohani e reclamou do ponto de vista do Irã em “conectar a crise no Bahrein no que acontece na Síria”.

Acrescentou o ministro do Exterior do Bahrein: “O relacionamento do Irã conosco não é normal. Não há um embaixador iraniano no Bahrein. O Irã deve indicar o seu embaixador para que haja um quadro natural de relações que queremos sem mediação e também não nos conectam à crise na Síria. O que se declara pelo Conselho de Cooperação do Golfo vai contra nossas convicções e vai contra aquilo que queremos para a Síria.”

A reação do ministro do Irã foi surpreendente. Ele disse: “Engraçado o que todos vocês dizem e repetem as mesmas palavras. Quando nos sentamos com os membros do Conselho de Cooperação do Golfo em separado, vocês dizem que não estão satisfeitos com o que está acontecendo na Síria e estão forçados a assinarem as declarações”.

O Sheikh Khalid o interrompeu: “Certifique-se de que isso é a verdade e que não temos mentindo a respeito”. Acrescentou: “Nós entendemos que é o país (Irã) é pluralista e que há diferentes opiniões. Compreendemos as posições assumidas pelos meios de comunicação iranianos, mas esperamos que os canais oficiais de mídia nos tratem de forma diferente”.

Completou o ministro do Exterior do Bahrein: “Enviem o embaixador iraniano e imediatamente nos o receberemos. Tomem uma iniciativa política e estaremos prontos para colaborar com vocês em face das pressões que o Bahrain e toda a região sofrem. Uma iniciativa política nos mesmos moldes que vocês fizeram na Síria e que será acolhida de imediato. Já recusamos inúmeras iniciativas do Qatar, do Kuwait e da União Europeia, queremos que vocês em particular tomem tal iniciativa.”, completou o ministro.

O ministro do Irã respondeu: ”Vocês nos confundem. Se a gente se pronuncia sobre o Bahrein vocês dizem que é intervenção em assuntos internos. Se a gente fica em silêncio, vocês pedem para nos intrometer. Meus colegas no Ministério do Exterior têm esses mesmos pressentimentos. Esse pedido foi feito pelo rei ao ex-ministro do Exterior Ali Akbar Salehi durante a Conferência Islâmica. Eu não tenho uma posição definitiva para lhe dar de imediato, mas estarei avaliando isso logo.”

Finalizando, o ministro iraniano disse: “Vocês nos acostumaram a negar nossa iniciativa toda vez que declaramos isso. Vocês mudam de posições constantes e não mantêm uma política consistente. Quem deseja de fato uma solução política, liberta os prisioneiros políticos e mostram sinais de boa vontade assim como outros países o fizeram. A exemplo de Damasco que libertou 3 mil prisioneiros quando tomamos a iniciativa de intermediação entre seis países na região. Vocês, ao contrário, aumentarem o numero de prisioneiros políticos, inclusive ultrapassando as linhas vermelhas aprisionando os próprios religiosos. Em quem acreditar?”

O Governo de Manama retirou seu embaixador em Teerã, em março de 2011 em resposta as críticas feitas pelo Irã ao envio das tropas da Arábia Saudita e Jordânia denominadas de “Escudo da Península” para ocuparem o Bahrein e depois dos massacres cometidos por lá. Teerã respondeu retirando seu embaixador de Manama.

Depois de um tempo, o embaixador do Bahrein retornou à Teerã, mas o Irã não mexeu um músculo. Em seguida, Manama anunciou o retorno dos voos diretos entre as capitais, mas foi rejeitado pelo Irã sob a alegação de não coordenação prévia. O mesmo se aplica nos pedidos de desconectar a ligação da crise do Bahrein com os acontecimentos na Síria e seu desejo de dissolver os problemas longe dos acordos regionais.

É evidente que o Monarca do Bahrein tenta impor sua equação. Ele quer se posicionar entre os EUA e o Irã. Apesar de estar distante do Irã, não há sinais de tensão entre os países. Ele está ciente de que a Arábia Saudita está comprometida com o seu tio e o aprova como rei atual. Seria o menor dos dois males, entre ele e o príncipe herdeiro preferido dos EUA que não se opõe aos desejos do Irã.

Há poucos dias, o Tribunal Penal do Bahrein elevou a pena de 18 cidadãos acusados de participarem de protestos contra o regime, de cinco a sete anos. São 122 cidadãos condenados por acusações de participarem em manifestação não autorizada. A Justiça do Bahrein condenou também 15 acusados por um período de sete anos e outros três co-réus por um período de cinco anos de reclusão por atacar uma delegacia policial em novembro de 2012. Os promotores acusam os réus de “ataque à integridade do corpo de policiais, acender fogo em pneus deliberadamente, e posse de cocktails Molotov”. O tribunal os acusou também de participar de uma manifestação não autorizada, no intuito de “prejudicar a segurança pública”.

Desde 29 de setembro, o Tribunal Penal do Bahrein emitiu penas que vão até prisão perpétua para 104 oposicionistas, numa média que varia de cinco a 15 anos de prisão. A principal acusação é formarem a frente de oposição “14 de Fevereiro”.

*Elie Chalhoub é um dos analistas mais conceituados em assuntos do Golfo, e escreve para o diário libanês Al-Akhbar. O texto original em árabe foi traduzido e adaptado ao português por Assad Frangieh, da Editoria do Oriente Midia.

Fonte: Oriente Mídia

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